Clínica Psiquiátrica curitiba

No jogo da vida a preocupação com a formação dos nossos filhos e a concorrência que eles enfrentarão fazem parte do nosso cotidiano.

No dia 30/05/2025 partiu Mario Adler, filho dos criadores da empresa Estrela. Responsável pela criação do “Dia das Crianças”. Em entrevista ao jornal Estadão, em 2010, disse que o sucesso da data foi inesperado. “Acreditávamos que seria uma ação de marketing interessante para incrementar o negócio, mas não tínhamos a menor noção da importância que iria adquirir com o tempo”.

A pedido de um amigo fui revisitar minha infância para escrever esse texto. Adler foi criador de inúmeros jogos e brinquedos. Diversos que marcaram a minha infância. Cito aqui eles nominalmente: “O Jogo da Vida”; “Autorama: Senna versus Piquet” e “Aquaplay”.

Como poderiam esses jogos influenciar a vida futura de uma criança? Discorro a seguir a importância destes na minha vida pessoal.

 O Jogo da Vida, me fez ter ambição! Sempre desejar ser alguém importante e com boas condições financeiras. Queria ser médico ou advogado. Profissões que traziam retorno financeiro rápido caso tivesse alguma dificuldade no futuro, tanto no jogo quanto na vida.

Autorama: Senna versus Piquet, me fez ser competitivo! Aprender a perder, mas sempre buscar o melhor desempenho; treinamento constante em busca da perfeição; pelo conhecimento e a busca por atalhos.

Aquaplay, me fez ser persistente e resiliente! A dificuldade em colocar as argolas dentro das hastes me trouxe capacidade de resiliência e entendimento de que na vida, nem sempre ocorre o que, e como, nós desejamos.

O significado dos jogos na minha infância foi muito além do ato lúdico. Me preparou para a “vida”!

Em um período em que os pais davam aos filhos o seu melhor à época, eu só tinha o costume de receber presentes no Natal, no Aniversário e no Dia das Crianças. Isso gerava em mim expectativa, promovia o desejo e desenvolvia o sonho em ganhar o presente tão aguardado. Nada como a expectativa do dormir cedo na noite anterior ao dia do aniversário ou do feriado para poder acordar cedo, ser surpreendido, aproveitar o dia e brincar com o presente novo.

A espera, a expectativa, o sonho, se perderam ao longo dos anos. As novas gerações passaram a ganhar presentes todos os finais de semana. Bastava passear no shopping no final de semana para vir um pedido, uma birra e os pais a estragar um filho. O presente (brinquedo) e as datas se tornaram obsoletos. Foram substituídos por qualquer dia e por qualquer eletrônico e motivou a permanência das crianças cada vez mais fechadas em seu quarto. A interação social foi esquecida e houve apenas o contato e as conversas durante os jogos de forma online. A socialização e as datas festivas tomaram outro rumo e contribuímos diretamente para esse novo cenário.

Ávidos por proporcionar o “melhor” e o “máximo” para nossos filhos, deixamos de os frustrar. Ofertamos videogames, tablets, computadores e celulares de última geração cada vez mais precocemente visando um maior desenvolvimento em tecnologia ou simplesmente para que eles não nos incomodassem. A compra de um jogo ou de item deste, em uma loja virtual, tornou-se banal. Apenas mais um pedido e a suposta obrigação dos pais em fornecerem.

Na última semana me foi solicitado dar uma palestra a pais de alunos do 5⁰ ao 9⁰ ano, da rede de ensino privada Grupo Positivo , sobre a Adolescência. Da série a vida real. Como identificar uma patologia em nossos filhos? Como protegê-lo de um mal maior? Como prepará-lo para o futuro sem estragá-lo?

A pergunta que a maior parte dos pais fazem hoje em dia é: “Qual a idade ideal para eu dar um celular para o meu filho?”. Como convencer os pais que o não uso do celular precocemente não vai influir na capacidade cognitiva e intelectual deste menor no futuro? Em um mercado de trabalho cada vez mais competitivo e pais buscando promover o melhor estudo e possibilidades a seus filhos, como convencê-los que o não uso da Internet é benéfica!? Principalmente em um mundo cada dia mais digital. Estudos mostram que as crianças só deveriam ter acesso a celulares, e por consequência redes sociais, após os 12 anos de vida.

Hoje já sabemos que o acesso a rede social é capaz de gerar mais ansiedade nas crianças e adolescentes. O estímulo visual constante dos vídeos e a busca pelo prazer imediato trouxe maior sobrecarga sobre o sistema de recompensa cerebral precocemente. Esse sistema é responsável pela identificação e sensação de conforto ao prazer. Seu estímulo precoce atua em receptores cerebrais dopaminérgicos e acelera o risco a vícios e dependência deste mundo digital.

Daí surgiu uma doença psíquica nova. F.O.M.O.. Siglas iniciais das palavras em inglês. Fear Of Missing Out. Significado genérico é o medo de estar perdendo algo, se sentir deslocado por não estar acompanhando o que esta acontecendo no mundo digital/virtual. Isso ocasionou maior dependência das telas de celulares por parte dos adolescentes.

Atualmente, um vídeo que você assiste têm apenas 3 segundos para conseguir prender a sua atenção para você querer assisti-lo até o final. Isso é o reflexo do imediatismo que tomou conta do nosso mundo atual.

Uma geração mais ansiosa que não sabe esperar, perder, ser resiliente, perseverante e consistente. Ao meu ver, qualidades indispensáveis para se ter sucesso pessoal e profissional.

Precisamos saber preparar melhor nossos filhos para o futuro. Afinal de contas serão eles que darão continuidade a nossa sociedade. Devemos saber aliar a tecnologia ao desenvolvimento pessoal. A inteligência artificial vai substituir a necessidade de acumularmos muitos conhecimentos. O acesso a informação de qualidade nunca foi tão acessível ao ser humano. Porém, os indivíduos sabem cada vez menos utilizá-la a seu favor.

Com isso vêm a pergunta: Quais são e serão os valores inegociáveis que desejaremos transmitir aos nossos filhos?

Precisamos nos voltar mais a nossa essência e ao passado. Precisamos reaproveitar os brinquedos e as coisas boas do passado utilizando-as no presente. Não precisamos obrigatoriamente da tecnologia para a promoção de filhos mais capacitados e/ou atualizados.

A promoção desde a infância de habilidades sociais, ambição, competição, persistência, resiliência, o saber perder e o lidar com a frustração foram deixados de lado e farão muita falta no futuro se não forem resgatados imediatamente, com ou sem a informática diretamente envolvida.

Dr. João Luiz da Fonseca Martins é Médico Psiquiatra e Diretor Técnico Clínica Iátrica e Iátrica Spa. Membro Titular da Associação Brasileira de Psiquiatria. Professor, palestrante e ávido promotor do uso das “artes” no processo de psicoeducação para a melhora das doenças psíquicas. CRM/PR: 24.289 e RQE: 3.011.

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